Desapegos contemporâneos


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Se você mora no século 21 com certeza já pensou, leu, refletiu e se envolveu em questões ligadas ao uso excessivo e dependência da tecnologia na maneira como se comunica e interage com o mundo.

Bem no comecinho dessa pandemia, fiquei chocada ao saber de um hotel de luxo em Nova York que confiscava smartphones para que os hóspedes (executivos, na maioria) conseguissem seu propósito de descansar e relaxar de verdade e, pasmem, com direito até a profissionais treinados para ajudar àqueles em crise de abstinência. Um confisco do bem para quem resiste em aceitar que essas criaturinhas abduzam sua atenção e definam suas prioridades.

Sabemos o que veio em seguida: esse cenário se intensificou e se estabeleceu de vez com a chegada das redes sociais e seu irresistível poder de sedução, que transformaram o desafio da desconexão numa missão quase impossível.

A todo momento psicólogos, psiquiatras e estudiosos do comportamento humano aconselham a prática de um desapego saudável desses dispositivos. Convenhamos que a busca da temperança nessa relação requer um padrão de autovigilância permanente e inatingível, até porque não dá para negar que os bônus são muito maiores do que os ônus de estar online 24x7.


Temos de reconhecer que a internet provocou desapegos que jamais imaginaríamos possíveis. O mais emblemático no meu caso foi desapegar dos CDs depois que foram completamente dizimados pela tecnologia do streaming. Foi di-fí-cil: depois de digitalizá-los carinhosamente, levei-os a um sebo para uma sobrevida e tive de engolir o olhar de tédio do atendente pensando que eu era ‘mais uma que acredita que aquilo tinha algum valor para alguém além dela’. Doeu.

Foi um verdadeiro teste de autoconfiança desapegar de alguns livros físicos que foram cúmplices de momentos decisivos da minha vida, pois bateu a dúvida sobre se as lições que eles me trouxeram foram, de fato, aprendidas ou se eu precisaria relê-los. Sugiro nem tentar com aqueles sobre assuntos apaixonantes que você grifou e fez anotações nas bordas, pois será uma batalha perdida. Aposto que será mais fácil quando eu tiver que desapegar dos e-Books.


E o que dizer das fotos? Levando em conta a overdose de fotos que fazemos hoje de tudo, sem critério algum que avalie o seu merecimento ou importância, elas já nascem resignadas com seu destino de serem abandonadas nas nuvens. Se bem que eu conheço um monte de gente que acredita de verdade que um dia vai parar, organizar os zilhões de fotos e imprimir as melhores para fazer um álbum. Será?


É fato que o desapego traz benefícios e renova energias. Mas vou respeitar meus limites e já identifiquei um que eu não pretendo ultrapassar de jeito nenhum: abandonar numa esquina qualquer uma bicicleta alugada por aplicativo, sem ter certeza absoluta se ela tomará chuva, se alguém virá buscá-la ou se passará a noite ao relento, como vejo muita gente insensível fazer por aí. Eu não conseguiria, pois sempre lembraria da minha primeira bicicleta que ganhei porque o Papai Noel recebeu uma cartinha dizendo que eu tinha me comportado o ano todo, respeitado os meus pais e tirado boas notas.


Seria desapego demais para mim.

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