Primeiro a emoção. Depois o post


Foto: highwaystarz, Adobe Stock

A ordem proposta no título nada mais é do que a versão 4.0 daquele conselho antigo que nos alerta que colocar a carroça na frente dos bois nunca funciona. Será que um ditado popular que viaje pelo tempo sem perder a essência e que ainda faça sentido nos dias de hoje tem algo a nos ensinar?


Imagine a cena: dois bois determinados e focados na missão de chegar ao seu destino pisoteando a carroça, danificando seu conteúdo, abandonando-a pelo meio do caminho e, ao final, trocam olhares bovinos e se perguntam sobre qual era mesmo o objetivo da viagem?


Não sei quando essa pérola da sabedoria popular foi inventada (aposto que não era uma época de ansiedade nas alturas como a nossa), mas parece que as pessoas já mostravam um alto nível de impaciência que fazia com que quisessem atropelar a ordem natural das coisas.


Isso me lembra das apresentações musicais do meu filho na escolinha. As mães sentadas no chão ansiosas para verem seus tesouros em ação no palco, absolutamente certas de que conseguiriam emocionar-se e fazer fotos maravilhosas para eternizar o momento e compartilhá-lo com parentes e amigos. Stress gigantesco, mesmo na era aRS*, quando postagens e lives não eram nem possíveis e nem ‘obrigatórias’.


E os comentários pós-evento: foi lin-do mas eu sentei num lugar péssimo pra fotografar .... que ódio daquela avó ali que ficou com o cabeção na minha frente o tempo todo! E a rotina se repetia em to-das as ocasiões semelhantes pois, afinal, mãe é tudo igual, só muda de endereço.


Um dia meu filho mudou de endereço, ops, de escola, e lá estava eu também apreensiva para curtir, tirar foto, etc. O professor experiente se apresenta, dá uma geral sobre como foi o processo de criação e informa que, na verdade, serão duas apresentações iguaizinhas e que a plateia tinha de se comprometer a não fotografar nem filmar a primeira, apenas apreciar, se emocionar junto com os seus filhos e aplaudir. “Combinado? Na segunda vocês podem registrar à vontade”. Simples assim: primeiro os bois, depois a carroça; a emoção antes do registro. Aprovação e alívio imediatos à proposta do professor.


Revivi inteiramente essa experiência ao descobrir iniciativa semelhante do Theatro Municipal de São Paulo, que criou os projetos # BisNoMunicipal e

# EuNoMunicipal para que as pessoas estejam inteiras, sem distrações, completamente mergulhadas nos concertos, sabendo que haverá um bis ao final do espetáculo, momento em que poderão filmar e fotografar à vontade e até fazer transmissões ao vivo. De vilão, o celular se transformou em um aliado que deixa a plateia feliz e ainda faz divulgação espontânea e gratuita para o teatro.


Alerta: como não vai ter bis nos momentos mais importantes da vida, nós mesmos é que teremos de escolher em que lugar a emoção deve ficar. E não venha depois chorar sobre o leite derramado.


* aRS: antes das Redes Sociais




Vídeo do YouTube postado por Alyssa Morial-Bailaria (12.10.2017)


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