Desafios de maratonista

Atualizado: 26 de Jun de 2019



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Alguns hábitos muito comuns hoje em dia eram inimagináveis há poucos anos, quando a internet não fazia parte das nossas vidas. Assistir séries em plataformas de streaming*, por exemplo. Ou melhor: assistir séries em plataformas de streaming ininterruptamente, emendando um episódio atrás do outro.


A prática, apelidada de maratona de sofá, ganha cada vez mais adeptos, a julgar pelos comentários quase sempre entusiasmados nas rodas de conversa de amigos e familiares, de onde é praticamente impossível sair sem pelo menos uma indicação de 'série imperdível!’.


A infinidade de séries atualmente disponíveis em nada se parece com as existentes no início dos anos 2000, quando a única alternativa após assistir a um episódio de Lost, famosa série com sobreviventes de um acidente aéreo numa ilha deserta, era aguardar uma semana inteira pelo próximo. Nesse intervalo, os seguidores se divertiam criando junto com amigos as mais diferentes teorias sobre possíveis rumos da história e não se tinha notícia de epidemias de ansiedade provocadas por essa espera.


O cenário foi mudando aos poucos até que viramos assinantes dessas plataformas. No início os filmes dominavam o catálogo, mas rapidamente as séries foram se multiplicando e, quando me dei conta, quase todos os meus amigos já tinham sido abduzidos pela nova febre.


Uma pesquisa feita em 2019 pela Radio Times sobre formas como as pessoas assistem TV no Reino Unido mostra resultados surpreendentes: 50% dos 5.500 entrevistados disseram que já passaram mais de 8 horas seguidas sentados assistindo séries e 18% admitiram terem ligado para o trabalho dizendo que estavam doentes, quando o real motivo para ficar em casa era terminar uma maratona de várias temporadas.


E mais: 23% admitiram ter mentido ao afirmar que estavam assistindo uma série da qual todos estavam comentando, por se sentirem pressionadas a mostrarem atualizadas com a programação do momento. Não cheguei a tanto, mas confesso que assisti ‘La Casa de Papel’ por acreditar que eu era a única terráquea que não sabia do que se tratava.


Não tenho nenhuma saudade da época em que tudo acontecia muito de-va-gar e o leque de opções para quase tudo era limitado, muito pelo contrário. No entanto, creio que seja válido refletir sobre os possíveis impactos desse hábito, começando pelo fato de exigir um recurso finito e escasso, que é o nosso tempo. Na verdade, tempo demais.


Considere ainda a hipótese de sua decisão de assistir uma série possa ter sido uma não-escolha sua, mas uma recomendação de algoritmos que parecem nos conhecer melhor do que nós mesmos.


Será que estamos apenas relaxando de uma rotina exaustiva ou nos perdendo nesse universo de infinitas possibilidades em vez de dedicar tempo para nossos planos e propósitos que farão uma real diferença na nossa vida? Vale lembrar a famosa frase de Paracelso, médico e cientista do século 16, que diz que a diferença entre o remédio e o veneno está na dose.


Fica a dica: um pouco de equilíbrio só pode nos fazer bem.

*Streaming: tecnologia de transmissão de conteúdo em tempo real pela internet, sem precisar baixá-lo no computador ou celular, como Netflix, Globoplay, Amazon Prime Video, HBO Go, entre outros.




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