Amor que se consome


Imagem: Tierney, Adobe Stock

Textos objetivos, simples e diretos sempre me cativaram.

Quando li a frase “o gosto virou amo, o quero virou preciso e o vivo bem virou não vivo sem”, usada num anúncio para a divulgação dos resultados de uma pesquisa sobre as marcas mais desejadas pelos brasileiros, fiquei sem reação num primeiro momento. Em seguida, percebi a genialidade dessa definição sobre a presença das marcas nas nossas vidas. Uma presença sutil, penetrante e incontestável.

Não sei exatamente quando foi a primeira vez que ouvi alguém dizer que amava um objeto, mas lembro que foi de uma amiga se referindo a um novo shampoo. Confesso que achei aquela forma de falar muito expressiva, que não deixava nenhuma dúvida sobre o grau de aprovação dela sobre o tal produto.

Essa cena me transportou para a época em que aprendi sobre figuras de linguagens nas aulas de Língua Portuguesa. Seria isso uma metáfora ou, mais precisamente, uma hipérbole, aquelas frases exageradas do tipo ‘quase morri de fome’? Descobri que a figura de linguagem correta para esse caso é a ‘personificação’, que é quando atribuímos características humanas a objetos inanimados para dar mais dramaticidade a uma ideia. Bingo! Coisas viraram pessoas.

Hoje em dia esse tipo de ‘amor’ está espalhado por todos os cantos. Todo mundo ama um carro, um restaurante, uma academia, um celular, uma cerveja. O detalhe é que não se trata de um ‘amo’ simplesinho, mas dito com uma entonação pausada e emocional: eu a-mo esse carro! É comovente ... até os olhos de quem se declara brilham!

Para desvendar a natureza desse amor é essencial perceber que ele não tem semelhança com aqueles que a gente se acostumou a ver nos filmes, nos livros, nas músicas, na nossa vida e na de um monte de gente que conhecemos. A grande diferença é que esse amor contemporâneo não é duradouro e nem precisa de outra pessoa, causa ou propósito para acontecer. Precisa apenas ser comprado, descartado e (logo) substituído. É um amor regido, alimentado e retroalimentado pela lógica do consumo. Parte do princípio do ‘consumo, logo existo’ e assim satisfaço minhas necessidades reais e afetivas.

De verdade, a gente gosta de carros, bolsas, sapatos, celulares, mas ama mesmo as pessoas e as causas que acreditamos. Queremos um montão de coisas que não precisamos, mas somos capazes de viver muito bem, obrigada, sem elas. O contrário é um equívoco que pode fazer muito mal às nossas vidas.


Anúncio do lançamento da edição 2018 do Guia Marcas no jornal Estadão de 29/05/2018.

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