Essa tal privacidade


Foto: © ulkas, Adobe Stock

Pesquisa rápida: na sua opinião, qual o tema mais comentado e menos compreendido desse momento pós-moderno em que vivemos? Eu responderia sem pestanejar: privacidade.


A ideia de privacidade sofreu uma grande transformação ao longo do tempo. Pra começar, a origem da palavra está relacionada a ser privado de algo, de não ter direito de participar da esfera social, uma forma de castigo, como acontecia com os escravos, por exemplo. Só muito tempo depois é que esse termo passou a significar uma condição para se exercer a individualidade e ter a intimidade preservada.


Lembro que minha mãe sempre alertava para eu não comentar nada do que acontecia dentro da nossa casa com os amiguinhos da rua e nem ficar xeretando sobre a vida dos vizinhos, pois ‘cada um deve cuidar da sua’, recomendação que era renovada sempre que alguma novidade acontecia na família. Era uma época em que público e privado tinham limites muito claros.


Cresci acreditando que manter e respeitar a privacidade era muito positivo. Há alguns anos fiquei chocada ao saber de mulheres que participavam de um programa de TV para provar a paternidade de seus filhos para homens que a negavam. Com um detalhe: o teste de DNA era pago pela emissora e o resultado revelado ao vivo. Na época nem pensei que podia ser tudo combinado, que os envolvidos podiam até receber cachê, mas só o fato de um programa desse dar audiência já era estarrecedor para mim.


No início dos anos 2000, quando a internet chega de vez ao nosso cotidiano, a privacidade ganha outros contornos. Nos primórdios das redes sociais, revelar uma rotina recheada de privilégios, antes compartilhados apenas com grupos seletos de familiares e amigos, virou status até então só acessível às celebridades. Eram tempos de privacidade espontânea e inconsequentemente devassada.


Num segundo momento, as pessoas começaram a entender o que eram rastros digitais, aqueles registros invisíveis de T-U-D-O o que fazemos na internet e que vão para um gigantesco banco de dados (o famoso Big Data), onde se transformam em algoritmos poderosos, que advinham tudo o que a gente gosta e nos fazem comprar cada vez mais.


À medida que passamos a conhecer esse mecanismo, fica mais clara uma máxima antiga no mundo dos negócios que diz que não existe almoço grátis. Pesquisar nos sites de busca, trocar mensagens nas redes sociais, comparar preços, escolher um filme ou um restaurante são facilidades que adoramos e já incorporamos na nossa rotina, mas não são gratuitas. São uma troca, justa na maioria dos casos.


Calma aí: ainda que nosso comportamento online seja usado primordialmente para fins econômicos, esses rastros digitais também servem para finalidades mais nobres como medir o tráfego de veículos para traçar rotas mais eficientes em horários de pico de trânsito, identificar as tendências de surto de doenças para definição de políticas públicas de saúde e até para tomar medidas preventivas em locais de grande incidência de crimes.


O jornalista americano Kenneth Cukier, autor de vários livros sobre tecnologia e seu impacto na sociedade, acredita que o estudo dos nossos dados causará uma revolução gigantesca e provocará ganhos expressivos em todos os setores da vida. No entanto, ele nos revela também o potencial lado sombrio do Big Data, que é o seu poder de acabar com o que hoje chamamos de privacidade.


É preciso ter em mente que tecnologia é a força que permeia nossas conquistas por uma vida cada vez melhor e que isso requer um aprendizado incessante. Construir e conviver com um conceito de privacidade compatível com os novos tempos faz parte desse processo.


A minha conclusão é que a internet, com todas as suas potencialidades, é igual a um filho que nasce sem manual de instrução. A gente só vai descobrir no dia a dia qual a melhor forma de lidar com ele.

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